sábado, 17 de setembro de 2011

1. dos luxos do coração


Amedeo Modigliani - Female Nude with Hat (1908)

então havia este gajo que tinha a mania que sofria muito por amor. o gajo chorava toda a noite, babava-se a ver filmes românticos na televisão, amaldiçoava-se aos ventos e a quem o quisesse ouvir (o que era raro), ameaçava matar-se por ela (ou por ele, porque não?), acordava a pensar nela (ou nele), passava o dia a pensar nela (ou nele... já se entende que tanto faz o sexo. perdoem-me que não o repita por preguiça), e dormia a pensar nela, sem que antes pensasse nela, digamos, "com ambas as cabeças", rapaz esperto que era.

a tipa nem era nada por quem muita gente desse a vida, mas pronto o gajo lá gostava dela à maneira dele. achava-a a mulher mais linda do mundo, a princesa mais "conto-de-fadas" que existe... ela é que nao o achava nenhum principe, podia ate mesmo achá-lo um grande sapo. e ela provavelmente tinha mais razao acerca dele que ele acerca dela.

a verdade é que o rapaz exagerava nas coisas que dizia ver... onde ele via "linda", os outros viam "borbulha horrivel a crescer-lhe no nariz, um bigode grande demais para o sexo, mamas pequenas, magra e escanzeladita"; onde ele via "excelente ser humano", os outros viam "puta", "cabra", "com-a-mania-que-é-a-maior-mas-não-vale-um-pintelho"; pobrezito do moço, que das duas uma, ou é cego ou os gostos não são grande coisa.

mas o gajo lá andava. andou anos a dar-lhe boleias até às discotecas onde ela não queria estar com ele, comprou-lhe grandes presentes que ela até queria, mas tanto lhe fazia se eram dele ou não, e fez-lhe uma parafernália de "romantiquices" que ela não queria, por serem dele e não d'outro.

porque, claro, ela também amava outro "perfeito" ser humano, ou seja, para ela "perfeito", para os outros um "banano".

e o rapaz lá anda,corno, e diz que ama.

penso nesta bonita história e descubro que amar só pode ser um luxo de gente snob. se a maior parte de nós anda a fugir do sofrimento, ser capaz de aturá-lo e, mais, sentir-se orgulhoso disso só pode ser de gente que pelos vistos, não tem mais nada que fazer da vida... ou então são só parvos.

desculpem a história. o rapaz está óptimo. poderia até ser eu.

atenciosamente,
o parvo
J.

Sem comentários:

Enviar um comentário